Era Uma vez no Oeste – Sergio Leone

Se você entender a magia desse filme, você vai poder dizer que entendeu a tal da Mise-In-scéne.

Sérgio Leone não movia a câmera um milímetro que fosse sem estar buscando a ação e colocando ela no plano. Tudo aquilo que você precisa ver está no plano ou entra nele assim que se torna parte da cena. Em todo o filme. E esse movimento de câmera é incrivelmente elegante. (Não encontrei outra palavra).

No minuto 01:13 se pode ver isso: todo mundo em cena, no seu lugar.  Bazin em seus textos afirma que isso trata-se de dar liberdade de escolha a quem assiste para decidir para onde olhar. Profundidade de campo total. O diretor não escolhe para onde você deve olhar, ele deixa você escolher e pra isso coloca tudo em cena de uma maneira bonita e elegante.

O diretor entendeu o conceito que Hitchcook usava. Ele sabe  que é bom “mostrar ao invés de falar”. A cena te passa a mensagem muitas vezes sem nenhum diálogo. Mostrando um respeito ao intelecto de quem assiste. Isso engrandece a obra.

Para mostrar sem falar, ele muitas vezes usou algo que vimos no filme Janela Indiscreta: Closes nas expressões dos personagens. Porque ele escolhe mostrar isso ao invés de fazer os personagens falarem para expressarem suas emoções

Outro detalhe interessante é o trem. O que o veículo a vapor que mudou a história da humanidade  é para a diegese do filme? É a grande metáfora: o progresso. O trem chega e muda tudo. Acaba com a vida como ela era no oeste.  O próprio Western estava morrendo na época em que Sergio Leone fez o filme. Para isso ele entra em cena sempre fazendo barulho, tomando conta de tudo, e enchendo a tela.

É um clássico que vale muito a pena. E ajuda a criar gosto pelo gênero e a admirar Sergio Leone.

A Lista de Schindler

SchindlerPosterSpielberg fez seu melhor filme em 1993 e eu só assisti mais de vinte anos depois.

Como retratar um período negro da história mundial nas telas do cinema? Com certeza existem muitas maneiras. Mas, uma justiça imensa se faz ao filmar as cinzas de uma guerra brutal sem cores. Em preto e branco a emoção e a tristeza de um povo massacrado ganha teor de registro.

A maneira com que a câmera está sempre mais próxima do personagem com o qual o diretor quer que você se identifique mais é perfeita. Você é oprimido junto com os judeus. Você sente a impotência deles perante a crueldade alemã e entente, vendo o filme, pelo menos uma parte do que sofreram esses 6 milhões massacrados pelo führer e seus seguidores.

Memórias de minhas putas tristes

 Para ti nada é impossível, minha cara Rosa Cabarcas!

     Imagem Adaptações de livros para cinema contam com uma dificuldade prévia: as pessoas já sabem o que esperar. Além disso existe toda uma expectativa quando se fala de uma obra literária como a de Gabriel Garcia Márquez.

        Em memórias de minhas putas tristes, ou no original “Memoria de mis putas tristes (2012)” de Henning Carlsen, a paleta de cores e a direção de fotografia, entre outras coisas, são adequadas para a grandeza do livro. O filme remonta a história de forma fiel.

       A trilha sonora dá uma melancolia e uma amargura aos noventa anos do Sábio dos cabarés caribenhos que faz com que o espectador seja tomado pela emoção em diversas cenas. É como se por algum tempo se pudesse realmente se sentir velho como o personagem.

       Logo no início, quando nosso protagonista é apresentado ao mundo da prostituição ainda na juventude, temos imagens se fundindo em degrade. Uma estratégia boa para mostrar a fusão de mundos, o  do menino inocente com o das mulheres de vida fácil.

       A narrativa conta com nuances do passado, mesmo deixando claro que o filme se passa no presente. É interessante ver como podemos imaginar toda a vida do Sábio vendo apenas alguns acontecimentos importantes do seu passado. Uma vida toda em pouco mais de 130 minutos.

       Há muitas mensagens escondidas no filme. A controvérsia da religião, com cenas de sexo sendo cordadas abruptamente para torres de igrejas. O jornalismo e a censura, com os textos do Sábio sendo riscados em vermelho. A submissão feminina com Damiana sendo capacho sexual durante 22 anos e continuando virgem, isso só para citar alguns exemplos.

       Um ótimo filme, porém acho que a história ficaria um pouco confusa para quem não leu o livro.

O espetacular Homem Aranha 2

  Marc Webb surpreendeu positivamente!

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       Um trabalho muito bem feito de mise-in-scéne, o que eu não costumo encontrar em filmes com um apelo tão comercial. Muitas das técnicas de montagem que vimos em Tubarão (a cena do barco saindo do porto) e em Era uma vez no oeste (A bala de revolver que se transforma em  trem) foram bem usadas pelo diretor.

        O posicionamento sempre cuidadoso das pessoas no quadro, nas cenas entre Peter e Harry  entre outras. Isso mostra um respeito pelo intelecto de quem assiste. Não é porque  você está vendo um filme comercial de super-herói que você vai ficar contente com qualquer coisa.

        Já que falamos de Spilberg, o sistema de pista e recompensa que o diretor usa em Tubarão com a trilha sonora  foi levado a sério desde a primeira até a última cena. Esse cuidado  deixa o filme do Aranha com uma cara mais inteligente, apesar de usar não a música (como Spielberg) mas as imagens para isso.  A cena do relógio no início parece desconexa, mas apenas parece. Isso só para citar um exemplo.
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O filme parece prometer que teremos mesmo uma série melhor que a antiga trilogia.  Agora é possível ver coisas mais bem feitas, mais bem pensadas. Coisas como arco dramático bem construído e o cuidado com a composição. Quando na série antiga – mas ainda viva –  existiam muitos  cortes rápidos e sem muito propósito que não fosse a sensação de velocidade e ação. Se no primeiro filme da nova série ficou aquela sensação de “mais do mesmo” com a história se repetindo como já estávamos acostumado a ver, no segundo a coisa mudou de figura.

        Andrew Garfield parece mais à vontade na pele do herói e consegue transmitir com fidelidade o ar juvenil característico desta versão. Versão que é melhor porque é mais fiel aos quadrinhos. Gosto das piadas do Aranha e acho que elas ficam leves e espontâneas. Muitos dirão que a uma diferença muito grande de personalidade entre Peter Homem Aranha. Bem, quem achar isso com certeza não leu as HQ’s.

       Outro aspecto positivo do filme são as cenas de luta e as acrobacias do herói por Nova Yorque.  Elas claramente foram pensadas para o 3D. Sempre temos uma boa profundidade de campo na tela o que beneficiaria esse tipo de exibição. Eu não vi em 3D mas acredito que a experiência seja boa com esse filme.

         Mas nem tudo são rosas. Algumas coisas deixam a desejar. Uma delas é a quantidade grande de tramas secundárias no filme. A cena do avião poderia ser retirada do roteiro sem nenhum prejuízo para a trama. Bem como o número excessivo de vilões. Isso acaba por tirar a atenção que poderia ser melhor direcionada.  Batman O cavaleiro das Trevas nos ensinou que em filmes de Heróis, um único vilão bem feito é melhor do que vários. Por falar em Coringa, o Duende Verde desse novo filme do Aranha é muito interessante, justamente pelo toque de loucura da personalidade, mas como disse ele fica prejudicado pela coexistência de mais dois outros adversários do aracnídeo.

Filhos da Esperança

 O mundo está uma confusão mesmo!

       E não é de hoje. As pessoas notam isso. Conversam sobre isso e veem na arte uma maneira de representar essa constatação. O cinema retrata bem essa confusão mundial em Filhos da Esperança (2006) de Alfonso Cuarón.

        A moldura é um mundo caótico e uma Londres devastada pelas gangues de rua. Por algum motivo as mulheres pararam de engravidar e a humanidade chega a cogitar a ideia da extinção. O homem não sabe mais o que fazer. O dia-a-dia de trabalho perdeu o sentido. A produção cultural perde a razão quando em pouco menos de cem anos não haverá mais público vivo para admirar a arte.

        Essa confusão está nos olhos e rostos sem esperança dos atores, na paleta de cores sem vida, e principalmente na técnica de filmagem com câmera no ombro que Alfonso Cuarón.

        Além da câmera na mão, e do movimento sempre tenso. Os planos sequência criam uma realidade muito crua de todo aquele caos. A famosa cena do carro, que confundiu até quem estuda cinema, mostra a preocupação do diretor em manter o seu conceito de câmera na mão e plano sequência mesmo quando é preciso usar de recursos de montagem para conseguir esse resultado final dentro de um veículo em movimento com cinco atores. Revi a cena algumas vezes antes de pesquisar como foi possível faze-la. Vale a pena.

       A jornada do Herói, com  alguns dos doze passos de Campbell, e um arco dramático bem construído junto com as cenas de tensão aumentando a intensidade e o caos (que é próprio do filme) sendo dosado continuamente conseguem, somados com a técnica de filmagem, manter o espectador submerso no mundo e na realidade proposta no filme. Essa imersão criada por exemplo com os planos sequência, contribui muito para a experiência ao assistir.

        Por fim é preciso dizer que me surpreende saber que o filme não ganhou nenhum Oscar nem foi indicado para as principais categorias. Uma proposta muito boa, principalmente para alguém que como eu gosta de cenários apocalípticos.

    Lançamento: 8 de dezembro de 2006 (1h49min).

A menina que roubava livros

A menina que roubava livros

Eu odeio Adolf Hitler!

        E gritar isso a plenos pulmões deve ter sido a vontade reprimida de inúmeras crianças alemãs em 1930-40. Devem ter odiado o Fuhrer quando ele os obrigava a odiar seus semelhantes. Mas devem ter odiado ainda mais aquele bigodudo filho da mãe quando perceberem que a morte seguia seus pais enquanto serviam as ideias do exército alemão. As inocentes crianças de cabelos loiros não nascem odiando negros, judeus e comunistas. Mas os adultos as ensinam direitinho. Transformam inocência em preconceito e ódio.

        “A menina que roubava livros” dirigido por Brian Percival, trata dessa inocência infantil arrasada pelas vontades e crueldades do mundo dos adultos. O fundo nazista amordaçava sonhos e esperanças, queimava livros e a imaginação dos jovens, assim como muitas mordaças do mundo mais velho que se diz adulto ainda faz hoje.

        Um bom filme. Faz você pensar.

Lançamento 31 de janeiro de 2014 (2h11min)

– Dirigido por:  Brian Percival
– Com:  Geoffrey Rush, Emily Watson, Sophie Nélisse.
– Drama
– EUA , Alemanha